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21set/10

A História da Indústria Gráfica (Post 16)

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Vamos continuar com a História da Indústria Gráfica. Relembrando nosso último post da cronologia, foi publicado em 22 de Agosto último e paramos no ano de 1.965.

Então, continuando...

1966

Capa histórica do JT - Foto de Reginaldo Manente. Esta capa é analisada e tema de estudos em cursos de comunicação até hoje

Jornal da Tarde, ou simplesmente JT, é um dos jornais diários da cidade de São Paulo, publicado desde 4 de janeiro de 1966, inicialmente vespertino, passando a matutino mais tarde.

O JT foi concebido e idealizado por Mino Carta, com o auxílio de Murilo Felisberto. Eles foram incumbidos pela família Mesquita, de O Estado de S. Paulo, para criar um novo modelo de jornal no Brasil, diferente do tradicional, buscando inspiração no intenso movimento cultural e as mudanças de comportamento que ocorriam na segunda metade da década de 1960.

"Jornal do Carro"

A primeira edição do JC em 04/08/1982

A primeira edição do JC em 04/08/1982

Em 4 de agosto de 1982, uma quarta-feira, foi lançado o suplemento "Jornal do Carro", sobre veículos, com 16 páginas e o mesmo formato tabloide que mantém até hoje. Ele foi baseado numa coluna de mesmo nome que o jornal publicava desde o primeiro número. Nessa coluna, em 1967, já tinha sido publicado um "furo", com fotos da primeira limusine brasileira, a Itamaraty Executivo, fabricada pela Willys Overland.  As fotos foram conseguidas com o aluguel de um helicóptero, e os seguranças presentes ao evento, numa chácara fechada na Rodovia Anchieta, tentaram esconder o carro com o corpo, alguns até tirando a roupa na esperança de que assim as fotos não fossem publicadas. Publicado inicialmente uma vez por quinzena, passou depois a ser publicado todas as quartas-feiras e, desde os anos 2000, também aos sábados. Já nos primeiros meses o suplemento conquistou seu primeiro prêmio, o Prêmio Abraciclo, setorial, por uma reportagem sobre condução de motos com segurança. A partir de agosto de 1987 o suplemento passou a ter cores nas capas e em eventuais páginas internas, uma inovação para a época, e a ser dividido em cadernos, para separar assuntos e também classificados. Sua tabela de preços, que começou com 34 modelos de automóveis e seis de motocicletas, em um total de 3 mil cotações, tornou-se referência no mercado. O "Jornal do Carro" é o suplemento automotivo mais lido em São Paulo.

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Revista Realidade

Capa da Edição n.1 de Realidade - 1966 - Pelé em alusão a Copa da Inglaterra

Realidade foi uma revista lançada em 1966 pela Editora Abril. Era caracterizada por uma abordagem mais criativa e ousada, com matérias em primeira pessoa, fotos que deixavam perceber a existência do fotógrafo e design gráfico pouco tradicional. Circulou até Janeiro de 1976 e se destacava por deixar o repórter viver a matéria por um mês ou mais até a publicação.

A primeira fase da revista (de 1966 a 1968) foi a mais notável e trazia grandes temas do momento com matérias totalmente esmiuçadas sobre temas que geravam polêmica, e uma forma de escrita surgida nos Estados Unidos que combinava eficientemente clareza e objetividade em uma estrutura com foco narrativo, o Jornalismo Literário. Nesse novo estilo os jornalistas tinham total liberdade para escrever os textos em primeira pessoa, inserir diálogos com travessões, fazer descrições minuciosas de lugares, feições, objetos, alem disso era possível alternar o foco da narrativa de observador onipresente para testemunha ou participante dos acontecimentos. Realidade era uma revista que trabalhava com a emoção, investia-se muito no jornalista para que ele conseguisse transmitir em suas reportagens uma idéia real do fato onde se penetrava na mente do jornalista para se recriar seu pensamento e/ou seus sentimentos e emoções através de entrevistas interativas, com o auxilio de novas técnicas de design e fotografias ousadas.

Mesmo com um curto período de vida, Realidade foi um divisor de águas na imprensa brasileira, rompeu com todos os padrões estruturais, aboliu o jornalismo tradicional questionando o que não era questionado, dizendo o que não era dito de maneira sutil capaz de fazer o publico ler entre as entrelinhas e raciocinar por si próprio. Fazendo o oposto da imprensa tradicional que apenas publicava noticias baseados em senso comum, enquanto em Realidade eram publicadas denuncias que geravam mobilização social.

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1967

O jornal "Cidade de Santos" editado e impresso pela Folha da Manhã S/A foi o primeiro jornal do Brasil a ser impresso no sistema offset.

A implantação do sistema offset foi um marco histórico cuja saga foi  publicada na Folha de São Paulo no dia 30 de janeiro de 1.968. Vejam um resumo da publicação da época:

Publicado na Folha de S.Paulo, terça-feira, 30 de janeiro de 1968

Neste texto foi mantida a grafia original

O novo sistema de impressão que estamos agora utilizando - o que V. certamente já notou - é do tipo "off-set", o que significa dizer que é o mais moderno processo de impressão de jornais existente no mundo, hoje. Existe aqui, na FOLHA DE S. PAULO, uma história de 3 anos de marchas e contra-marchas. Uma verdadeira luta.

A idéia da "off-set" surgiu em 1962, quando representantes dos fabricantes das impressoras "Goss" falavam sobre os seus equipamentos aos diretores da FOLHA. Entre os vários tipos sugeridos, estava um conjunto "off-set", pelo qual houve um interesse imediato. Mas os próprios representantes o desaconselharam, porque - segundo suas razões - o equipamento era muito moderno e ainda eram raros os jornais que o haviam adotado. Mesmo nos Estados Unidos poucos eram os diários que já usavam o sistema.

Havia na época, entretanto, a necessidade de ampliação do equipamento de impressão da FOLHA. Sua tiragem aumentava a olhos vistos e a solução precisava ser dada. O assunto foi entregue a técnicos especializados, para que o examinassem. Enquanto isso o presidente da Empresa visitou o Japão e, em Saporo, acompanhou a impressão "off-set" de um dos jornais de grande tiragem no país. Em face do que viu, uma conclusão se impôs: ao invés de se continuar investindo em equipamentos de superação técnica facilmente previsível, ficou evidente ser mais acertado investir em equipamento moderníssimo, ainda que inédito na América do Sul.

As primeiras dificuldades

Depois dos primeiros entendimentos com os fabricantes das impressoras "off-set", transcorreu quase um ano de intervalo até que se chegasse à decisão. No espírito dos diretores do jornal, muito depois de vencida a fase de compra do equipamento e de início de sua instalação, surgiu muitas vezes a pergunta: como se conseguiu coragem de empreender a implantação de "off-set"?

Folha de São Paulo em 14/12/1968

A direção da FOLHA pesou todas as dificuldades e mediu todos os obstáculos inerentes a um empreendimento pioneiro desse vulto e resolveu aceitar o desafio. Tratava-se não apenas de uma inovação industrial, mas realmente de uma revolução completa na imprensa.

Chegava-se a certeza da compra, já víamos as máquinas rodando. Um equipamento de três máquinas, de 8 unidades cada uma, num total de 24 unidades, foi então encomendado pela Empresa Folha da Manhã S.A.. O vulto da operação: cerca de 4 bilhões de cruzeiros antigos. Abria-se um precedente: pela primeira vez importava-se equipamento para uma empresa nacional, com financiamento da AID, com base em aval fornecido por um banco brasileiro.

O Banco que desempenhou tão importante papel foi o Banco de Investimento Fiducial de Comércio e Indústria.

A instalação

Durante meses travou-se uma batalha surda: um equipamento absolutamente novo chegava. Equipes precisavam ser preparadas; meios de transportes e operação deveriam ser mobilizados (300 toneladas de máquinas). Departamentos novos precisavam ser criados, organizados e colocados em condições de funcionamento operacional.

As grandes caixas começaram a chegar por navio ao Rio de Janeiro no dia 2 de maio de 1967. Era a "off-set" que chegava. O segundo conjunto de máquinas chegou no dia 8 e o terceiro no dia 11 de maio. Com intervalo de seis dias elas eram entregues em São Paulo. O prédio onde seriam instaladas estava em fase final de construção, numa corrida contra o relógio, trabalhando-se 24 horas por dia. As grandes caixas eram empilhadas no pátio do jornal.

Os componentes da fotomecanica, um complexo conjunto de aparelhos eletrônicos ultra-sensíveis, vieram por via aérea. Eram os primeiros a serem exportados de seus países produtores: Itália, Alemanha Ocidental, Inglaterra e Estados Unidos.

Fachada do prédio da Folha nos dias atuais

Pequenas dificuldades surgiram então. O volume e o peso dos conjuntos de máquinas exigiam um tipo especial de transporte, para transferí-los do pátio para o edifício onde seriam instalados (cada conjunto de duas unidades pesa 16 toneladas). Era impossível carregá-los a braço. Com os guindastes comuns também não. O socorro a tempo veio da Construtora Camargo Correia, que ofereceu dois tipos especiais de guindastes de haste curta, utilizados em suas construções de pontes.

De abril de 67, mês em que as últimas adaptações eram feitas no prédio da "off-set", passando por maio, quando as primeiras unidades eram montadas, a outubro, quando todo o sistema estava pronto, verificam-se fatos históricos para a imprensa brasileira. No dia 9 de julho, rodava o primeiro jornal em "off-set". Era a "Cidade de Santos". A impressão visual provocada no leitor que se acercava das bancas era de que ele se encontrava diante de algo inteiramente diferente.

E no dia 1.o de janeiro deste ano, a FOLHA DE S. PAULO começava a ser rodada parcialmente em "off-set". No primeiro feriado do ano e na cidade quase deserta, um acontecimento revolucionário na imprensa brasileira: era o primeiro jornal do mundo de grande tiragem a ser rodado nesse sistema.

O feito

Após 178 dias, chegou o dia D. Foi precisamente no último domingo, dia 28 de janeiro de 1968, toda a tiragem da FOLHA DE S. PAULO rodou em "off-set", exatamente 222.789 exemplares de 60 páginas. Às quatro horas da madrugada a máquina parou; cumprira a sua missão. A FOLHA DE S. PAULO já estava circulando no Brasil, toda em "off-set".

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Continuem acompanhando A História da Indústria Gráfica que temos ainda muita matéria interessante para publicar, como essas de hoje.

Não se esqueçam que no final da série teremos a publicação de um arquivo com todos os posts e ilustrações como presente aos nossos leitores.

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